A Philos apresenta uma seleção de destaques da Bienal de Arte São Paulo 2025 pelo olhar sensível e crítico de Bianca Dias — psicanalista e crítica de arte. Um convite a uma imersão profunda na arte contemporânea. Sem mais delongas, leia a correspondência de Bianca para o nosso editorial:
Achei interessante caminhar meio perdida por entre obras, uma forma de ir absolutamente nova instaurada pela curadoria, um jeito de andar.
A ausência de referências mais explícita não me incomodou tanto, compreendi que a errância faz parte do caminho faz tempo e gosto de me perder e de não compreender facilmente. Gostei muito do projeto expográfico, do espaço e arejamento entre obras ou bloco de obras de um mesmo artista. também gostei de ver foi o olhar de fora para dentro: ir percebendo diálogos que podem se fazer apenas por alguém que à distância consegue enxergar diferente.
Esse modo de andar, essa maneira de caminhar, percorre a bienal na mistura de um artista desconhecido com outro e no final das contas achei que isso fazia parte da proposta que retira as hierarquias e sustenta algo um pouco turvo. A escolha dos artistas me pareceu certeira, há obras muito boas mesmo.
Acho que temos uma boa amostra ali de uma pesquisa séria e de um olhar atento. Como eu escutei a ótima conversa do Thiago de Paula Souza, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, Ricardo Aleixo e Lisette Lagnado no Sesc Pompéia antes de visitar pude capturar nuances muito interessantes da proposta da bienal. Gostei bastante da curadoria do Bonaventure Soh Bejeng Ndikung. Está ali muita coisa que eu amo:
- Gervane de Paula
- Maria Auxiliadora
- Heitor dos Prazeres
- Alberto Pitta
- Antonio Társis
- Marlene Costa de Almeida
- Sertão Negro
E também muitos artistas para se conhecer —além daqueles que podemos reconhecer sob novos prismas. Destacaria aqui:
- Zózimo Bulbul
- Kamala Ibrahim Ishag
- Gōzō Yoshimasu
- Adjani Okpu
- Raven Chalon, Iggor Cavalera e Laima Leyon em parceria com a comunidade Xavante.
Conheça mais dos artistas:

Alberto Pitta (Salvador, Brasil, 1961. Vive em Salvador) Iniciou sua produção na década de 1980 e tem a estamparia têxtil e a serigrafia no centro de sua obra. Recentemente, vem se dedicando também à pintura e a trabalhos escultóricos. Sua produção está profundamente ligada às festividades populares e tem forte dimensão pública, uma vez que Pitta é autor de estamparias icônicas presentes em blocos afro do carnaval baiano como Olodum, Filhos de Gandhy e o seu próprio, o Cortejo Afro. Suas criações apresentam elementos que evocam a tradição africana e afro-diaspórica, especialmente aqueles relacionados à mitologia iorubá, fortemente presente em Salvador e no Recôncavo Baiano. Realizou exposições individuais no Museu de Arte Moderna da Bahia (Salvador) e no Museu da Imagem e do Som (São Paulo).
Adjani Okpu-Egbe (Kumba, 1979. Vive em Londres) é mestre em prática de arte contemporânea pelo Royal College of Art, onde também atua como professor convidado. Acredita que os artistas possuem um contrato social inerente de dedicar aspectos de seu trabalho para lançar luz sobre questões que afetam suas comunidades. O comentário social e as referências às histórias, filosofias, iconografias, antropologias, sociologias, músicas, mitologias e à vida cotidiana afro-americanas, africanas e das demais diásporas africanas são recorrentes em sua prática. Primeiro vencedor do Prêmio de Arte Ritzau, ele já expôs na Tate Modern (Londres), Savvy Contemporary (Berlim), Kunstpalast Düsseldorf, Kunstverein Braunschweig, International Studio & Curatorial Program (Nova York), e Tel Aviv Museum of Art.

Antonio Társis (Salvador, 1995. Vive e trabalha entre Salvador e Londres) é filho de empregada doméstica e pai desconhecido, e neto de feirantes. Cresceu na favela do Arraial do Retiro, em Salvador, e iniciou sua prática artística aos catorze anos. Autodidata, tem sua trajetória marcada por uma investigação da materialidade urbana e da memória coletiva. Sua obra esteve no 38º Panorama da Arte Brasileira (Museu de Arte Moderna de São Paulo), no Instituto Inhotim (Brumadinho) e na 13ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre). Foi contemplado com o Prêmio EDP nas Artes (2016) e o Via Arts Prize, promovido pela Embaixada do Brasil em Londres (2019), além de ter integrado o programa Biennale College Arte na 59ª Mostra Internacional de Arte – La Biennale di Venezia (2022).

Gervane de Paula (Cuiabá, 1961. Vive e trabalha em Cuiabá) é artista autodidata. Sua produção abrange desenho, pintura, objetos e instalações, abordando questões sociais, ambientais e territoriais ligadas ao Centro-Oeste brasileiro. Participou de exposições no Art Museum of the Americas (Washington, D.C.), Bronx Museum of the Arts (Nova York), California African American Museum (Los Angeles), além do Museu de Arte de São Paulo, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Pinacoteca de São Paulo. Realizou exposições individuais em cidades como Belo Horizonte, Campo Grande e São Paulo, incluindo a mostra Como é bom viver em Mato Grosso (Pinacoteca de São Paulo, 2024).
Gōzō Yoshimasu (Tóquio, 1939. Vive e trabalha em Tóquio) é poeta e artista multimídia, figura central da vanguarda japonesa desde os anos 1960. Sua prática busca recuperar e reinventar os vínculos entre poesia e performance, transformando a linguagem em gesto e invenção. Seus manuscritos operam como colagens visuais e textuais, integrando referências literárias e idiomas coletados em viagens e trocas epistolares. Criou também a série gozoCiné, em que combina vídeo, composição poética espontânea e leitura performática. Apresentou individuais no National Museum of Modern Art (Tóquio), no Ashikaga Museum of Art, no Okinawa Prefectural Museum & Art Museum (Naha) e na Hokkaido University Museum (Sapporo).

Heitor dos Prazeres (Rio de Janeiro, 1898–1966) foi um artista multidisciplinar, tendo atuado como compositor, músico, marceneiro, sapateiro e alfaiate. Como pintor autodidata, iniciou sua carreira retratando memórias de seu passado e cenas do cotidiano da população periférica do Rio de Janeiro, incluindo festividades e rodas de samba. Participou da 1ª Bienal Internacional de São Paulo (1951), na qual alcançou o terceiro lugar entre artistas nacionais com a obra Moenda, e recebeu uma sala especial na 2ª Bienal (1953). Suas obras integram acervos de museus como o Museu Afro Brasil, Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e Museum of Modern Art (MoMA) em Nova York.

Kamala Ibrahim Ishag (Omdurman, 1939. Vive em Sharjah) foi uma das primeiras mulheres a se formar pela Faculdade de Belas Artes de Cartum em 1963. Aprofundou seus conhecimentos em litografia, tipografia e ilustração. Sua obra, enraizada na identidade cultural sudanesa, explora temas espirituais, místicos e sociais. Exibiu na Sharjah Art Foundation; Prince Claus Fund (Amsterdã); Shibrain Art Centre (Cartum); Museu Nacional do Sudão (Cartum); Akhnaton Gallery (Cairo); Whitechapel Gallery (Londres); e no National Museum of Women in the Arts (Washington, D.C.). Suas obras integram coleções como a Jordan National Gallery (Amã) e o MoMA (Nova York).

Maria Auxiliadora (Campo Belo, 1935–São Paulo, 1974) foi uma pintora e artista autodidata, reconhecida por suas representações da vida cotidiana e das tradições populares. Suas obras retratam a vida doméstica e rural, celebrações religiosas afro-brasileiras, o carnaval, bem como a vida urbana e as comunidades de São Paulo. Sem educação formal em artes, iniciou sua trajetória artística ainda na infância, aprendendo bordado com a mãe aos nove anos de idade. Mais tarde, passou a desenhar com carvão e a pintar com guache. Aos 26 anos, experimentou a pintura a óleo. O reconhecimento de sua obra ocorreu principalmente de forma póstuma, com destaque para a crítica internacional. Suas pinturas integram importantes coleções públicas, incluindo o Museu de Arte de São Paulo, o Museum of Fine Arts, em Boston, e o Musée d’Art Naïf et des Arts Singuliers, em Laval.

Marlene Almeida (Bananeiras, 1942. Vive em João Pessoa) é pintora, restauradora de arte e filósofa. Desde os anos 1970, pesquisa pigmentos e aglutinantes naturais, tendo a terra como matéria, poética e base de lutas sociais e ecológicas. Mantém fidelidade aos ideais de um mundo mais justo, a partir das Ligas Camponesas. Trabalha com pintura, escultura e instalações, entendendo a terra como suporte da arte-vida. Presidiu a Associação dos Artistas Plásticos Profissionais da Paraíba e ministrou cursos sobre pigmentos naturais no Festival Nacional das Mulheres nas Artes, no Festival de Verão de Petrópolis, no MAM Rio e na Fundação Espaço Cultural da Paraíba. Expôs no MASP, no MAC-USP e no Memorial da América Latina, em São Paulo, e na Fundação Espaço Cultural da Paraíba, em João Pessoa.

Raven Chacon (1977, Fort Defiance, Nação Navajo. Vive em Nova York) é compositor, performer e artista de instalações. Formado em música pela University of New Mexico e mestre pelo California Institute of the Arts, é reconhecido por explorar interseções entre som, espaço e histórias indígenas. Em 2022, tornou-se o primeiro nativo americano a receber o Prêmio Pulitzer de Música pela composição Voiceless Mass, e em 2023 foi laureado com a MacArthur Fellowship. Seu trabalho foi apresentado em eventos como a Whitney Biennial (Nova York), documenta 14 (Kassel), Bienal de Sydney, Vancouver Art Gallery e Musée d’art contemporain de Montréal. Atua também como compositor sênior e mentor no Native American Composer Apprentice Project (NACAP).

Sertão Negro (fundado em 2021, Goiânia) é um ateliê e escola de artes idealizado por Dalton Paula e Ceiça Ferreira. Localizado em um quilombo, o espaço articula tradições culturais afro-brasileiras e práticas de arte contemporânea, com atividades em cerâmica, gravura, capoeira angola, agroecologia e cineclube. A construção adota princípios de sustentabilidade, como captação de água da chuva e técnicas de bioconstrução. Fundado sobre conhecimentos e valores afro-brasileiros, o Sertão Negro se consolida como um epicentro cultural dedicado à preservação e expansão da ancestralidade negra e da produção artística para as futuras gerações.

Zózimo Bulbul (1937–2013, Rio de Janeiro) foi ator, diretor e roteirista de cinema. Iniciou sua carreira nos anos 1960 no Centro Popular de Cultura da UNE e despontou como ator no Cinema Novo, trabalhando com diretores como Glauber Rocha, Leon Hirszman e Cacá Diegues. Foi o primeiro protagonista negro de uma telenovela brasileira. Em 1974, dirigiu seu primeiro filme, Alma no olho, obra referência na cinematografia afro-brasileira. Dirigiu mais de dez filmes voltados para a valorização da cultura negra. Em 2007, fundou o Centro Afrocarioca de Cinema e o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, consolidando seu legado como referência para novas gerações de cineastas negros no Brasil.
Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo.